Metade da minha vida foi dedicada a este lugar. Por isso, escrever sobre a escola é, inevitavelmente, escrever sobre mim. A história da Escola dos Sonhos se entrelaça com a minha própria história, a ponto de, muitas vezes, eu já não saber onde uma termina e a outra começa.

Uma inquietação antiga
Em algum lugar dentro de mim sempre existiu uma inquietação. Embora eu tenha sido uma criança tranquila e obediente, havia algo que nunca se acomodava. Eu observava o mundo, via como as coisas funcionavam e me perguntava, silenciosamente: por que precisa ser assim?
Tudo parecia girar em torno do fazer, do cumprir e do corresponder. Havia pouco espaço para o ser, para o sentir, para a curiosidade e para a imaginação. E eu sentia muito.
No íntimo, acreditava que a vida poderia ser construída de outras formas. Mas quem era eu para desafiar aquilo que parecia ser a única maneira possível? Todos faziam assim. Então, talvez, fosse assim que devesse ser.
A força da maternidade
Até que me tornei mãe.
Não sei se vocês já experimentaram a força que a maternidade desperta. É como se, pouco a pouco, uma coragem desconhecida ocupasse o lugar do medo. As perguntas que antes permaneciam silenciosas começam a ganhar voz. A inquietação deixa de ser apenas um sentimento e passa a exigir movimento. De repente, o mundo já não era mais apenas o lugar onde eu vivia. Era o mundo que receberia minha filha.
E foi impossível não me perguntar: como matricular minha filha em uma escola semelhante àquela em que eu estudei? Uma escola onde ela talvez fosse apenas mais um número. Onde precisasse engolir suas perguntas, conter suas risadas e aprender, desde cedo, que agradar aos adultos era mais importante do que compreender a si mesma. Uma escola onde copiar valesse mais do que criar, cumprir mais do que descobrir, obedecer mais do que pensar.
Eu desejava que ela encontrasse um lugar onde pudesse permanecer inteira. Onde sua curiosidade fosse acolhida, sua sensibilidade respeitada e sua infância pudesse florescer em toda a sua potência.
Naquele momento, ainda sem saber, a Escola dos Sonhos já começava a nascer. Mas a verdade é que ela existia muito antes de eu me tornar mãe. Ela morava em uma lembrança.
O sítio da Vargem Grande
Os momentos mais felizes da minha infância aconteceram no sítio da minha família, na Vargem Grande. Toda sexta-feira, minha mãe nos buscava na escola. Passávamos rapidamente em casa, enchíamos o carro com roupas, mantimentos e tudo o que seria necessário para o fim de semana. Na memória da menina que eu era, aquela viagem parecia longa, quase uma travessia. Hoje, percebo que era um percurso comum. Mas, para mim, era como atravessar um portal.

Assim que chegávamos, alguma coisa dentro de mim encontrava o seu lugar. Eu amava aquele sítio. O cheiro da terra molhada. O canto dos pássaros antes do amanhecer. Os sons dos animais. O vento atravessando as árvores. O silêncio que só existe onde a natureza fala mais alto. Tudo ali fazia sentido. Eu me sentia completamente parte daquele lugar, como se finalmente estivesse em casa.
Tirar leite da vaca. Recolher os ovos do galinheiro. Acompanhar o nascimento dos filhotes. Subir nas árvores. Atolar as botas na lama. Pescar piavas com uma peneira na vala. Acordar e encontrar a neblina abraçando o morro até que, lentamente, os primeiros raios de sol aquecessem a manhã.
Naquela época eu não sabia, mas aquelas experiências também eram educação. A natureza me ensinava sem precisar explicar. Os animais despertavam cuidado. O tempo seguia outro ritmo. Meu corpo aprendia junto com o coração.
Uma pergunta encontra a outra
Foi então que uma pergunta encontrou a outra. Se eu acreditava que a escola podia ser diferente, e se o lugar onde eu havia aprendido a amar a vida pudesse também ser um lugar para aprender? E se a escola fosse aqui?
Naquele instante, tudo fez sentido. Minha filha poderia viver todos os dias aquilo que eu experimentava apenas nos finais de semana. Poderia crescer com os pés na terra, observando os ciclos da natureza, convivendo com os animais, fazendo perguntas, inventando brincadeiras e descobrindo o mundo antes mesmo de encontrá-lo nos livros.
Mais do que construir uma escola, eu queria proteger um jeito de viver a infância. Talvez a Escola dos Sonhos tenha nascido exatamente ali: quando compreendi que educar era, antes de tudo, preservar um olhar sensível e encantado sobre a vida.
Encontrar as pessoas certas
Mas logo descobri que um lugar, por mais bonito que fosse, não educava sozinho. A terra ensinava. As árvores acolhiam. Os animais despertavam cuidado. A natureza oferecia diariamente aquilo que eu desejava para as crianças. Ainda assim, faltava o mais importante. As pessoas.
Eu precisava encontrar gente que acreditasse no mesmo sonho. Adultos que compreendessem que educar não é conduzir uma criança por um caminho pronto, mas caminhar ao lado dela. Pessoas capazes de escutar antes de responder, de observar antes de julgar e de se emocionar diante de uma descoberta tão simples quanto uma semente brotando ou uma pergunta inesperada.
Eu não procurava currículos impecáveis. Procurava seres humanos. Pessoas que amassem aprender tanto quanto ensinar. Que encontrassem beleza nas pequenas coisas. Que percebessem que uma árvore também pode ser professora. Que uma pergunta pode ensinar mais do que uma resposta pronta. Que compreendessem que uma criança não é um recipiente vazio esperando para ser preenchido, mas alguém que já chega ao mundo cheio de curiosidade, potência e desejo de compreender a vida. Sempre acreditei que uma criança aprende melhor quando está encantada. O encantamento abre portas que a obrigação jamais consegue abrir.
E eu imaginava que, em algum lugar, existiam outras pessoas como eu. Gente inquieta. Gente que ainda carregava esperança no bolso. Gente que acreditava que a escola podia ser um lugar onde crianças e adultos crescessem juntos.
Mas, nessas horas, o invisível tem uma força difícil de explicar. Eu não precisei procurar essas pessoas. Foram elas que me encontraram.
Algumas já estavam por perto. Outras chegaram de longe. Vieram em tempos diferentes, por caminhos diferentes, mas todas traziam no coração a mesma vontade de construir uma educação mais humana.
Nenhuma de nós estava pronta. E talvez tenha sido justamente isso que nos uniu. Éramos pessoas incompletas, aprendendo enquanto fazíamos. Pessoas genuínas, dispostas a viver uma aventura cheia de desafios, descobertas e encantamentos. Gente que acreditava que uma escola podia nascer do afeto, da natureza, da escuta e da coragem de fazer diferente. Como escreveu nosso querido Manoel de Barros, dávamos mais importância aos insetos do que aos aviões.
E, sem perceber, fomos construindo muito mais do que uma escola. Construímos um lugar de pertencimento.
25 anos depois

Hoje, vinte e cinco anos depois, minha filha é adulta. Ao longo desse tempo, tive o privilégio de acompanhar a infância de centenas de meninas e meninos que passaram por este lugar. Muitos seguiram caminhos diferentes. Tornaram-se médicos, artistas, pesquisadores, professores, empreendedores, pais, mães, cientistas, educadores. Cada um escreveu sua própria história. Mas, acima de tudo, tornaram-se pessoas.
Gosto de imaginar que cada uma delas levou consigo um pequeno pedaço da Escola dos Sonhos. Talvez um cheiro de terra molhada. Talvez o canto de um pássaro ao amanhecer. Talvez o barro entre os dedos. Talvez a lembrança de um educador que acreditou nela antes mesmo que ela acreditasse em si. Ou simplesmente a certeza de que existiu, em algum momento da vida, um lugar onde foi profundamente acolhida, respeitada e amada. Um lugar que lhe ensinou que aprender pode ser um ato de alegria. Que a natureza também educa. Que as perguntas são tão importantes quanto as respostas. Que o mundo pode ser cuidado com delicadeza.
